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Cuidado com os sentimentos estragados

 

Havia um homem de nome Epifâneo que tinha uma vida bem tranqüila. Era casado, tinha dois filhos, morava em uma casa simples, trabalhava em uma firma muito boa e era muito feliz.

Certa vez Epifâneo foi até a venda comprar alguma coisa para o almoço, quando percebeu que alguns que estavam ali, começaram a cochichar e dar uma risadinha escondida. Olhou, não entendeu nada, seguiu em frente.

No outro dia a mesma coisa. Foi quando um amigo chegou até ele e lhe disse que sua esposa estava traindo ele com o seu patrão.

Enfurecido Epifâneo foi tirar satisfação com o patrão que confirmou tudo e acrescentou os detalhes da traição. Disse também que era o único motivo que assegurava o lugar no quadro de funcionários. Despediu-o sem dó e nem piedade.

Epifâneo partiu para sua casa para conversar com a esposa que o esperava com as malas para expulsar de lá.

O homem com a cabeça baixa saiu pelas ruas da cidade. Humilhado, desempregado e se sentido de viver caminhava remoendo em sua mente a mágoa que estava sentindo de sua ex-esposa e do seu ex-patrão. Dia e noite só pensava na tragédia que havia acontecido com ele, juntando na sua cabeça cada vez mais detalhes do acontecido, como por exemplo, no dia que ele ficava até mais tarde na firma fazendo hora-extra. Será que não foi nessas momentos que o safado aproveitava para ir lá na casa dele para seduzir sua esposa?

Junto com um cachorrinho (que deu o nome de Chuvisco) que começou a acompanhá-lo catava tudo que encontrava pelas ruas. No final da tarde tirava do saco os objetos e limpava, aproveitando o que era bom.

Certa tarde começou a limpar, esfregando com um pano uma lâmpada (aquelas que carregam gênios) e não é que o gênio saiu de dentro. Espantado perguntou o que significava aquilo. O gênio disse que era e falou que ele tinha um pedido para fazer. Epifâneo, coçando a cabeça falou que sempre tinha ouvido falar que eram três os pedidos, porque agora era somente um? O gênio, com má vontade, respondeu que havia mudado a constituição dos gênios de lâmpadas e que se ele quisesse teria que aceitar a regra. Ah, tem mais uma coisa, o pedido que você fizer pode ser imenso, só que tudo o que pedir e terei que dar em dobro ao seu pior inimigo com saudações tuas. O que? Disse Epifâneo enfurecido. Além de todo o mal que meu ex-patrão fez, vai ter benefícios às minhas custas? Que absurdo essa lei! Eu sei, exclamou o gênio, mas se quiser será nessas condições.

Preciso de um dia para pensar disse Epifâneo.

Epifâneo poderia mudar sua vida. Pedir riquezas e ir viver em um outro lugar, outro continente, mas só de pensar que seu inimigo se beneficiaria com isso dava uma dor no peito.

Chegou o dia tão esperado. Sem dúvida nenhuma e certo de sua decisão Epifâneo disse ao gênio que queria que ele o tirasse um olho.

Esse sentimento que fez com que Epifâneo pedisse ao gênio que tirasse um olho dele para que assim fossem tirados os dois de seu ex-patrão não se chama burrice, mas sim ressentimento.

O ressentimento ou uma mágoa persistente é um sentimento estragado que só sofre quem o sente.

Diversas pesquisas comprovam que doenças como câncer, dor de cabeça, diarréias e outras mais são resultado de somatização desses sentimentos.

Todos nós estamos sujeitos a mágoas momentâneas, frustrações e decepções. Até mesmo Jesus sentiu essa ‘raiva’: fez um chicote de corda e expulsou os vendedores, no templo de Jerusalém, mas não deu nenhuma chicotada no lombo de ninguém.

É natural sentir mágoa. O que é ruim é ficar alimentando ela. Parece que temos o prazer de ficar remoendo as coisas de ruim que fazem para nós. Esquecemos de tudo de bom que nos fazem, mas lembramos o dia, o ano, a hora, o lugar que fizeram o mal para nós.

Isso não traz benefícios algum para gente. Pelo contrário, vamos nos enfiando num buraco cada vez mais fundo. Vamos matutando uma maneira de se vingar daquele que nos magoou. Somos que nem aquelas maçãs, que não podem nem tocar que já fica ressentida.

Que pelo menos nesses tempos que precedem o natal consigamos ter os nossos corações e mentes limpas desses sentimentos estragados. Não esqueçamos que os prejudicamos maiores seremos nós mesmos que sentimos essas coisas.

 

Luciano Bianchini
Pedagogo, diagramador do jornal observador, 31 anos, casado.
lupiraju@hotmail.com
 

 

 

 

 

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