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O jumentinho Jesparo

 

Estava eu um dia tranquilo numa tarde de domingo quando de repente aparecem dois homens até a minha casa. Chamam meu dono e lendo seus lábios, percebo que querem me emprestar para um tal ‘mestre’ entrar numa cidade chamada Jerusalém.

Fiquei um pouco preocupado com a situação. Pensei:

- Será que vou ter que carregar alguma carga pesada? Ou ainda alguém muito gordo que deixe minha coluna deslocada? Ai meu Deus!

Meu dono amarrou uma corda em meu pescoço e entregou-me àqueles dois estranhos, ou melhor, um deles já tinha visto uma vez, quando eu era bem mais novo.

Chegamos numa estrada onde dez homens rodeavam um jovem com mais ou menos 33 anos, que aparentava ser gente lá da região da Galiléia.

Todos se alegram a me ver. Fiquei até inibido com recepção tão calorosa. O jovem galileu se aproximou de mim, acariciou-me, olhou nos meus olhos e disse que hoje e amanhã seriam grandes dias. Não entendi muito bem suas palavras, mas balancei com a cabeça, querendo demonstrar certa aceitação.

Colocaram um manto em meu lombo e o jovem montou em mim. Seu peso não era tão ruim como pensava e ele não ficava me dando ‘calcanhadas’, como muitos estúpidos costumam fazer.

Comecei a andar até chegar ao alto de um morro. Lá dava para ver toda cidade, que escutando um e outro dizer, cheguei à conclusão que era a tal Jerusalém.

O moço que estava em cima de mim disse algumas palavras e começou a chorar, como se o povo daquela cidade estivesse desprezando-o, assim como fizeram com outros que vieram antes dele. Fiquei com um nó na garganta vendo aquela cena, mas ele balançou a corda, dizendo para eu continuar a caminhar.

Chegando bem na entrada da cidade havia muita gente esperando-nos com ramos de palmeira nas mãos, gritando, “Bendito aquele que vem em nome do Senhor, o Rei de Israel”!

Por certo momento, pensei que tantas palmas e gritos eram para mim.

- Nossa!- exclamei. - Será que o homem que está em cima de mim é rei? Puxa vida, que honra a minha. Ele poderia muito bem entrar na cidade montado num cavalo ou até mesmo num camelo, que é mais chique que eu. Mas não, escolheu-me!

Confesso que me senti naquele momento o mais importante dos jumentos existentes na região.

Chegando a uma casa perto da estrada, amarraram-me do lado de fora e entraram para se alimentar. O jovem desceu, passou a mão em minha crina com todo o cuidado, como se estivesse querendo me agradecer pela viagem que fizemos. Mas sou eu que teria que agradecê-lo, por me fazer sentir uma felicidade nunca experimentada antes. Nunca me haviam tratado com tanto carinho como ele, até então um estranho para mim.

Do lado de fora, percebi que estavam muito felizes lá dentro. Queria tanto estar lá para ver o que estava acontecendo! Queria participar daquilo que estavam vivendo também.

Quando era bem de madrugada, percebi a porta abrir-se levemente e saírem todos juntos. O jovem galileu novamente dirigiu-se a mim, dizendo que teria que fazer uma coisa muito difícil, mas que valeria a pena. Disse para eu ficar em paz, que de manhã cedinho meu dono viria me buscar.

Sua voz era tão doce que apesar de querer ir, fiquei e dormi como nunca havia dormido antes. Amanhecendo o dia, escutei a voz de meu dono me chamando para voltar à nossa casa.

Passando pela cidade, avistamos uma movimentação muito grande de pessoas. Uns homens vestidos com umas roupas todas iguais. Escutei meu dono conversar com outra pessoa, dizendo que eram guardas levando um prisioneiro para ser crucificado.

Fiquei tão assustado que pensei:

- Que mal essa pessoa poderia ter feito para merecer tão cruel punição?

Meu dono quis se aproximar para ver a cena mais de perto. De repente, meus olhos ficaram esbugalhados, chocados com aquilo que estava vendo: o jovem galileu completamente em pedaços, torturado, sangrando e ainda por cima carregando uma madeira que, pelos meus cálculos, acho que pesava uns 70 quilos.

- O que ele fez para cometerem tal crueldade? Justo ele que eram tão doce e tão amável? – quis gritar para todos ouvirem, com uma voz que não saía. - Posso estar enganado, mas essa gente que está pedindo para crucificá-lo é a mesma que, ontem, aclamava-o como Rei deles mesmo.

Fiquei tão comovido que comecei puxar a corda que meu dono estava segurando. Queira ir lá ajudar aquele homem que me fez sentir tão importante e amado. Mas o  dono não quis saber. Puxou-me, inconformado, levando-me para o outro lado e resmungando:

- Ele só fazia o bem, Jesparo, meu jumento! Não fez nada de mal e não abriu a boca durante a condenação injusta que fizeram com ele. O pior disso é que foi tudo por inveja!  Não reconheceram Jesus, o filho de Deus, como foi profetizado pelos profetas.

No mesmo instante dobrei meus joelhos, abaixando-me, e fiz minha oração, pedindo para que o pai de Jesus perdoasse todos aqueles, pois não sabiam o que estavam fazendo.

 

Luciano Bianchini
Pedagogo, diagramador do jornal observador, 31 anos, casado.
lupiraju@hotmail.com
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