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    A coisa é séria

 Continuando a série ‘Boas Coisas’, apresento-lhes uma carta de John Vask ( documento extraído por um desconhecido da revista biográfica “De Los Tiempos” de abril de 2002). Diz respeito ao meio ambiente e as consequências de seu descaso. A carta, com fortes tintas apocalípticas, parece algo saído de uma ficção científica das mais trágicas e pessimistas. Mas é interessante anteciparmos o que pode acontecer à nossa volta e verificar que realmente somos nós os únicos responsáveis pelo que fazemos. Veja o quadro descrito, e não contribua jamais para que ele possa a vir se tornar uma realidade.

“Estamos em 2070, completei 50, mas pareço com alguém de 85. Sérios problemas renais, bebo pouca água. Creio que finda meu tempo. Hoje sou dos mais idosos nesta sociedade. Recordo dos meus 5; tudo muito diferente: muitas árvores nos parques, belos jardins, desfrutava de banhos de chuveiro por mais de hora. Agora usamos toalhas em azeite mineral pra limpar pele. Antes, mulheres de formosas cabeleiras. Agora, cabeças raspadas pra mantê-las limpas sem água. Antes, meu pai lavava carro com água de mangueira. Hoje, meninos não acreditam que se usava água pra isso. Muitos anúncios diziam CUIDA D ‘AGUA; ninguém ligava; pensávamos que água jamais se esgotaria. Agora, rios, barragens, lagoas e mantos aquíferos, todos estão irreversivelmente contaminados ou esgotados.

Antes, a quantidade de água ideal para cada pessoa adulta beber era oito copos por dia. Hoje bebo meio. Roupa descartável, o que aumenta demais a quantidade de lixo; voltamos a usar poços sépticos (fossas), como no passado, redes de esgotos sem água são inúteis. A aparência da população é horrível; corpos desfalecidos, enrugados pela desidratação, cheios de chagas na pele (raios ultravioletas, já não têm a capa de ozônio que os filtrava na atmosfera). Imensos desertos são a paisagem que nos rodeia por todos os lados. Infecções gastrintestinais, pólipos no intestino, enfermidades da pele e das vias urinárias são as principais causas de morte. O volume de biópsias fez crescer o número de laboratórios. A indústria parou e o desemprego é dramático. As fábricas de dessalinização são as principais fontes de emprego e pagam-me com água potável ao invés de salário. Assaltos por um bidão de água são comuns nas ruas desertas. A comida é 80% sintética. Ressequida, a pele de uma jovem de 20 anos está como se tivesse 40.

Os cientistas investigam, mas não há solução possível. Não se pode fabricar água, o oxigênio também está degradado, faltam árvores, o que diminuiu o coeficiente intelectual das novas gerações. Alterou-se a morfologia dos espermatozóides de muitos indivíduos, há muitos meninos com insuficiências, mutações e deformações.

O governo até nos cobra pelo ar que respiramos: 137 m3 por dia por habitante adulto. Os acionistas de empresas que tratam água ficaram ricos e têm preferência no fornecimento. Pessoas que não podem pagar são retiradas das “zonas ventiladas”, dotadas de gigantescos pulmões mecânicos que funcionam com energia solar; mesmo não sendo de boa qualidade ainda podemos respirar; a idade média é de 35 anos. Em alguns países ficaram manchas de vegetação com o seu respectivo rio, que é fortemente vigiado pelo exército; a água tornou- se um tesouro muito cobiçado, mais que ouro ou diamante. Aqui, em troca, não há árvores porque quase nunca chove e quando chega a registrar-se, a precipitação é de chuva ácida; as estações do ano têm sido severamente transformadas pelas provas atômicas e pela indústria contaminadora do século XX.

Advertia-se que havíamos de cuidar do meio ambiente e ninguém fez caso. Quando minha neta me pede que lhe fale de quando era jovem, descrevo o bonito que eram os bosques, lhe falo da chuva, das flores, do agradável que era tomar banho e poder pescar nos rios e barragens, beber toda a água que quisesse, o saudável que era a gente. Ela pergunta-me: Vovô! Por quê a água se acabou? Então, sinto um nó na garganta; não posso deixar de sentir-me culpado, porque pertenço à geração que terminou destruindo o meio ambiente, ou, simplesmente, não tomamos em conta tantos avisos.

Agora os nossos filhos pagam alto preço e, sinceramente, creio que a vida na Terra em breve já não será possível, porque a destruição do meio ambiente chegou a um ponto irreversível. Como gostaria voltar atrás e fazer com que toda a humanidade compreendesse isto, quando ainda podíamos fazer algo para salvar o nosso planeta Terra!”

Luciano Bianchini
Pedagogo, diagramador do jornal observador, 32 anos, casado.
lupiraju@hotmail.com
 

 

 

 

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